Em resumo: tradicionalização é o amadurecimento das empresas do mercado digital pela adoção das ferramentas que o mercado tradicional usa há décadas: gestão financeira, contábil, societária e contratual. É ela que abre espaço para fusões, aquisições e investimentos, como a fusão entre O Novo Mercado e a Craft anunciada em 2026. E vale para qualquer negócio digital, não só para quem pretende vender a empresa.

O mercado digital passou o fim de semana falando de uma coisa só: a fusão entre o Novo Mercado e a Craft, anunciada por Ícaro de Carvalho, Jonatas Figueiredo, Rodrigo Vinhas e Lucas Puerto no palco d’O Novo Mercado ao Vivo 2026. Se você é do mercado de infoprodutos, já viu o assunto rodar em todo grupo de WhatsApp e story dos últimos dias.

Palco do evento O Novo Mercado ao Vivo, edição de 10 anos, com iluminação em tons de roxo e rosa

Aqui não vou entrar em nenhum detalhe da transação – números, estrutura, condições, nada. Trabalhamos para o próprio O Novo Mercado, e sigilo profissional é sigilo profissional. Mas tem uma conversa muito mais interessante para ter, e ela vale para qualquer empresário do digital, não só para quem estava naquele palco: o que essa movimentação revela sobre para onde o mercado inteiro está indo.

O que é a “tradicionalização” do mercado digital

Já faz um tempo que eu falo sobre esse processo – cheguei a conversar sobre o tema com o JP, da Hotmart, lá no primeiro O Novo Mercado ao Vivo, em 2023. E a ideia é simples, apesar do nome que gera dúvidas.

Tradicionalização é o amadurecimento das empresas do mercado digital pela adoção de instrumentos que o mercado tradicional já usa há décadas: gestão operacional, administrativa, financeira, contábil, jurídica e contratual de verdade. Não é sobre marketing. Não tem nada a ver com funil, com estratégia de lançamento, com a próxima campanha de perpétuo. É sobre a empresa parar de operar no improviso e passar a ser, de fato, uma empresa.

E aqui vale uma distinção que muita gente confunde: o processo de tradicionalização não fala sobre vender mais. Fala sobre estruturar melhor. São coisas diferentes, e é justamente por misturá-las que tanta empresa fatura alto e quebra do mesmo jeito.

Por que fusão, aquisição e investimento são a consequência natural disso

Quando uma empresa amadurece, se organiza e se estrutura, ela destrava movimentos que antes eram impensáveis no digital. E é aí que entram as figuras clássicas do mercado tradicional:

Fusões e aquisições (M&A). Joint ventures. Parcerias societárias mais sofisticadas. Recebimento de investimento, rodadas de funding, entrada no mundo do venture capital. E, por que não, abertura de capital em bolsa lá na frente.

Repare que nenhuma dessas coisas tem a ver com “vender mais um curso”. Elas dependem de outra coisa: visão de longo prazo, modelo de negócio sustentável, canais de receita previsíveis. Um investidor sério não compra o seu último lançamento – ele compra a sua capacidade de gerar resultado de forma consistente e escalável, com ou sem holofote em cima do fundador.

Esse não é um fenômeno isolado do Brasil, aliás. O mercado global de Creator Economy vive o que analistas já estão chamando de era da consolidação: 2026 chegou com uma onda de M&A depois de um 2025 recorde em número de transações. O capital institucional parou de olhar o creator como hobby e passou a tratá-lo como classe de ativo. A fusão do Novo Mercado com a Craft é a versão brasileira, e provavelmente uma das primeiras grandes, dessa mesma maré.

New capital in 2026 has been more selective. One estimate put creator economy venture funding in the first five months of 2026 at roughly US$58 million across nine deals, compared with approximately US$807 million across eleven deals in the same 2025 period. Strategic acquisition activity has continued regardless. – Ariana Sorensen -By Content Grip

O founder como canal de aquisição – e o risco de depender só dele

Tem um ponto delicado nessa história toda, e ele merece atenção.

Hoje o digital vive um momento curioso: o próprio fundador sempre foi o canal de aquisição da empresa. A imagem, o rosto, a audiência do sócio fundador puxam as vendas. Isso é real, funciona, e – olha que interessante – está inclusive sendo levado do digital para dentro de empresas do mercado tradicional, que perceberam a força de ter um founder com cara e voz. Como é o caso do João Adibe na Cimed, entre tantos outros. 

O problema é depender só disso. Uma empresa que pretende se perpetuar, precisa de linhas de receita e canais de distribuição que não morram junto com a agenda ou a imagem do fundador. Enquanto todo o faturamento passa pela figura de uma pessoa, você não tem uma empresa vendável ou escalável, você tem um personagem com CNPJ. E personagem cansa, muda de fase, se desgasta ou simplesmente decide sair de cena.

Estruturar a empresa para viver além do fundador é um dos passos mais importantes, e mais ignorados, da tradicionalização.

O que isso tem a ver com o seu negócio (mesmo que você não vá fazer M&A)

Você pode estar pensando: “legal, mas eu não vou me fundir com ninguém nem abrir capital tão cedo”. Justo. Mas a lógica por trás continua valendo para você, e por um motivo bem concreto.

O jurídico não existe para atrapalhar a sua venda. Ele existe para proteger o dinheiro que a sua venda gerou. E essa é a parte que quase ninguém entende no digital: não adianta só faturar. Tem empresa que ganhou rios de dinheiro e mesmo assim quebrou – não por falta de venda, mas por excesso de prejuízo. Decisão societária mal feita, contrato de coprodução no improviso, sociedade sem acordo de sócios, falha tributária, cláusula que ninguém leu. Ganhou muito, gastou (ou perdeu) mais.

Faturar é metade do jogo. A outra metade é não perder o que faturou. E é exatamente aí que a estrutura jurídica trabalha a seu favor: ela evita o prejuízo que corrói o lucro que você suou para construir.

Como começar a estruturar o seu negócio digital

Você não precisa acordar amanhã com uma estrutura de multinacional. A estruturação é um caminho, não um interruptor. Mas dá para começar por onde mais dói:

Formalize a sua sociedade. Sócio de boca, divisão “de confiança” e acordo verbal são bombas-relógio, resolva enquanto todo mundo ainda se dá bem. Reveja seus contratos de coprodução e parceria, porque é neles que mora a maior parte dos prejuízos silenciosos do mercado. Organize a gestão financeira e contábil, porque nenhum investidor, comprador ou sócio sério entra num negócio cuja contabilidade é um mistério. E construa canais de receita que não dependam exclusivamente do fundador, para que a empresa tenha valor próprio.

Nada disso vende um curso a mais amanhã. Mas é isso que separa a empresa que fatura alto por dois anos daquela que se perpetua por dez, vinte anos.

Perguntas frequentes

O que é a tradicionalização do mercado digital? É o processo de amadurecimento das empresas do mercado de infoprodutos por meio da adoção de instrumentos de gestão operacional, administrativa, financeira, contábil e jurídica que já são padrão no mercado tradicional. Não tem relação com estratégias de marketing ou vendas – é sobre estrutura, não sobre lançamento.

A fusão do Novo Mercado com a Craft muda o mercado digital? Ela é um marco simbólico. Sinaliza que fusões e aquisições, antes raras no digital brasileiro, estão se tornando movimento natural de empresas que amadureceram. É o tipo de operação que costuma abrir caminho para outras semelhantes no setor.

Por que empresas do digital estão partindo para fusões e aquisições? Porque, ao se estruturarem, elas destravam movimentos típicos do mercado tradicional: M&A, joint ventures, captação de investimento e venture capital. Esses passos dependem de visão de longo prazo e receita previsível, não de vender mais no curto prazo.

Por que é arriscado depender do fundador como principal canal de vendas? Porque uma empresa cujo faturamento gira inteiramente em torno da imagem do fundador não é facilmente vendável, escalável e dificilmente irá se perpetuar. Se o fundador sai de cena, muda de foco ou se desgasta, a receita vai junto. Estruturar canais independentes protege o valor do negócio.

O jurídico ajuda a ganhar dinheiro ou só a evitar problema? Os dois, mas por caminhos diferentes. O jurídico protege o resultado que a operação gera, evitando prejuízos que corroem o lucro. Não adianta faturar muito e perder tudo em decisões societárias, contratuais ou tributárias equivocadas – faturar é só metade do jogo.

Preciso ser uma empresa grande para começar a me estruturar? Não. A estruturação que te levará para esse movimento de tradicionalização é um processo gradual. Dá para começar formalizando sociedade, revisando contratos de coprodução, do time, organizando a gestão financeira e reduzindo a dependência do fundador, independentemente do tamanho atual do negócio.

Conclusão

A fusão do Novo Mercado com a Craft vai ser lembrada pelo que ela representa: a prova de que o mercado digital brasileiro entrou de vez na fase adulta. A tradicionalização deixou de ser a minha teoria e virou pré-requisito para quem quer continuar nesse mercado.

Se você constrói um negócio digital e pretende que ele exista daqui a dez anos, o recado é direto: amadureça a gestão, formalize as estruturas, blinde os contratos e pare de depender só do seu próprio rosto para vender. Faturar você já sabe. A pergunta que decide o futuro é se você vai conseguir proteger – e perpetuar – o que construiu.